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Entrevista com o guitarrista Michel Leme – Parte 2

26
set
Michel Leme

Por Jota Sabóia

Na segunda parte da entrevista feita por Jota Sabóia, do blog Mestre da Guitarra, o guitarrista Michel Leme fala sobre o espaço e o público do jazz no Brasil, sobre a divulgação de artistas independentes na internet e sobre tocar aquilo que se gosta, sem seguir padrões.

Confira!

JS – Você tem tocado bastante com esse novo Trio, apesar do Jazz não ser um estilo comercial aqui no Brasil, ter um público específico e seleto. As pessoas que não abrem espaço para o estilo estão cometendo um erro ou estão pensando apenas no dinheiro? Na sua visão o que poderia ser feito para melhorar?

ML – Quem não está pensando apenas no dinheiro hoje? Tem vários “artistas” que conseguem projeção porque estão de acordo com o fascismo do momento atual, em qualquer que seja o gênero. Se você faz o que o sistema precisa é óbvio que vai ter destaque nele de alguma maneira, é um encontro de interesses. E não estou nem citando a escrotidão milionária do mainstream; a própria música instrumental – onde gira menos grana, mas gira – é mais um campo pra isso: os vendidos (explorados que querem ser exploradores e que abandonam o sonho inicial adequando-se à tendência dominante), os individualistas (competidores, heróicos, truculentos, cheios de “atitude”), os burgueses (que fazem o som “leve”, “alto astral”, que passa a mensagem pacificadora “está tudo bem”) ou mesmo os incapazes bem relacionados só mudam de nome e têm as primeiras senhas no sistema. Os projetos com grana têm estes caras como queridinhos, por uma questão de sintonia mesmo: o sistema quer manter a massa apática e estúpida, e esses personagens são perfeitos pra isso. Já quem está fora dessa sintonia, por talvez não ter estômago para desempenhar estes papéis, está excluído. Você me pergunta o que pode ser feito pra melhorar; honestamente, não sei. Talvez, em primeiro lugar, pra começar a faxina, seria legal abolir os rótulos. Nós tocamos música. Ponto. A partir daí, que cada um vá assistir ao vivo pra chegar às suas próprias conclusões – e qualquer conclusão que chegar num mero rótulo significa apenas mais um atestado de estupidez. Quanto ao cenário atual, não é dos mais favoráveis: as leis (Psiu, impostos para quem quer abrir uma escola, bar etc.) e a ideologia dominante – e em consequência, o próprio público, que é a grande marionete desta – dificultam para que exista música ao vivo tocada sem adequações à lógica da mercadoria. Não é novidade alguma e é fácil constatar que, para a sociedade de hoje, o músico deve apenas fazer fundo musical e/ou ser um “cover” de algum gringo milionário. Então, todos estabelecimentos que oferecem música ao vivo vão se tornando iguais, é proibido tocar livremente neles. Assim como o próprio público vai se tornando cada vez mais igual, uniformizado, querendo ouvir apenas mais do mesmo – e bem baixinho, pra não atrapalhar suas conversas… Enquanto isso, o músico tem que ouvir “abaixe o volume”, “pô, foi legal mas você não tocou a música ‘x’” e outras imbecilidades que todos já aceitam como normal. Resta apenas o gueto pra tocar à vontade. Então, como diz um amigo, vamos organizar esse gueto! Vamos pensar juntos em novas alternativas para continuar tocando, exercendo a arte que amamos fazer e mantendo nossa sanidade mental. Ideias?

JS – A música hoje não tem fronteiras, sabemos de onde vem os estilos , suas raízes e características. Hoje em dia todo mundo quer ouvir blues e jazz, os novos guitarristas que não tem muita estrada e conhecimento já dizem “sou jazzista ou blueseiro”. Há um certo modismo. Na sua Experiência, não é perigoso um músico dizer que é de um estilo especifico, apenas por causa da moda? Não seria preciso conhecer ou gostar suficientemente do estilo para definir-se jazzista ou blueseiro?

ML – Rótulos são parte essencial para que se venda um produto. Quem se auto-rotula está claramente colocando-se numa prateleira. Não é óbvio? Só que arte e capital andam em vias distintas. Quem quer fazer arte e, ao mesmo tempo, atingir a massa ou visar o lucro deveria informar-se pra ver que não dá pra ser íntegro artisticamente com estes objetivos. Quanto aos estilos que você cita e a questão dos modismos: a cada vez a mídia promove um ou outro estilo, dependendo do que precisa ser vendido. Basta pesquisar sobre “Indústria Cultural” pra entender isso com clareza. Enquanto isso, os verdadeiros artesãos da música seguem suas trajetórias fazendo o que amam fazer. Perde quem não busca presenciar isso.

JS – Quais são seus patrocínios e marcas que lhe apoiam atualmente?

ML – As marcas que me apoiam com produtos de qualidade para que eu possa tocar dignamente e que acreditam em projetos como este DVD são: Cassias, D’Addario, Fire Custom, Rotstage, Tecniforte. As empresas parceiras que apoiaram este trabalho: EM&T, MF Produções e Espaço Sagrada Beleza. Também contamos com o apoio logístico e trabalho dos parceiros do Espaço Cultural Ventos Uivantes.

JS – Que instrumentos e pedais você usou , no processo de gravação do DVD “Na Montanha”?

ML – Usei a guitarra acústica Cassias, que adquiri do luthier João Cassias e estou usando desde setembro de 2010. É um instrumento fantástico. Nela eu usei cordas D’Addario Chromes .012 (com a primeira E na medida .013 e a G desencapada .022). O amplificador é o mesmo Rotstage modelo Libra 100 que uso desde 2007, totalmente valvulado, meu modelo-assinatura. Efeitos: usei um Flanger resto de contratos passados, um wha-wha automático (ou “envelope”) da Guyatone e um Booster da Fire Custom. A fonte e o pedalboard também são da Fire Custom e os cabos são Tecniforte.

JS – Na internet, as mídias alternativas tem sido as principais formas de divulgação para trabalhos independentes ou fora dos padrões comerciais. Seu trabalho já chamou atenção de programas como o do Jô Soares que você participou e outros programas. Mesmo assim você participa e valoriza programas de internet mais simples e participa de sites e blogs de audiência menor e mais especifica. Qual a importância desses sites, blogs, programas de TV pela internet e redes sociais para a divulgação de seu trabalho?

ML – As novas mídias são importantíssimas para trabalhos independentes, porque ainda não foram maculadas (em sua maioria) com os vícios das mídias tradicionais totalmente vendidas, escravas do capital. Desta forma, existe democracia nesse nicho: os artistas independentes têm o mesmo espaço que os bancados por multinacionais bilionárias, por exemplo – o que é improvável nas mídias tradicionais. Por esta razão, estes veículos são a via principal de divulgação para trabalhos como o meu e o de colegas que atuam de maneira similar. E os responsáveis por estes veículos realmente ouvem e curtem o som, são apreciadores de música que ajudam na difusão destes trabalhos. Eu dou total valor a isso, por isso ajo como parceiro destes veículos, prontamente. Quanto à “grande mídia”, só um exemplo: tocamos no Jô Soares com o Umdoistrio em 2003 e, depois disso, mesmo enviando os discos a cada lançamento, nada! A mídia tradicional não justifica o trabalho do artista como a maioria das pessoas acredita e apoia estupidamente; o que justifica o trabalho de um artista é a continuidade, a integridade, a qualidade. Só que pra atestar isso é preciso sair da zona de conforto.

JS – Na visão de um músico e critico musical que acompanha seu trabalho, seus CDs e DVD, esse foi o trabalho mais livre de formatos e padrões comerciais. Para quem ouve é algo inovador e libertador, pois é uma nova formula que está dando certo. E a mensagem está sendo passada de tocar o que gosta e não o que os outros querem ouvir. Às vezes parece estar remando contra a Maré, mas nos Rumos que a música comercial está no Brasil hoje, a maré não está na direção errada?

ML – Eu jamais visei o comércio nos meus discos. O que acontece é que você vai trilhando uma jornada de autoconhecimento, vai acumulando experiências na vida e isso, claro, vai aparecendo no som e deixando a sua mensagem mais clara. Eu também não diria que encontrei uma “fórmula”, de fato eu nem quero isso; eu simplesmente quero tocar o que me dá prazer. Quanto à questão da “maré”: a “boiada” está consumindo o que o sistema quer que ela consuma, e para mim esta boiada está se dirigindo para o abatedouro e levando junto com ela o nosso planeta. Se algo não mudar, infelizmente o crescimento perpétuo do capitalismo continuará acabando com qualquer possibilidade de sustentabilidade – assim como inverteu e subverteu os valores da sociedade. É tudo uma questão de vender o que é preciso vender; o Capital é maior do que o próprio Homem. Então, em relação à arte, a Indústria Cultural dominou a cena e o lixo é premiado com ouro e vice-versa. Realmente eles conseguiram. É o caos, e é um absurdo que já foi absorvido pelas pessoas como “normal”, assim como a violência, o jabá, os programas dominicais, os BBBs, a opressão econômica etc. Estão todos anestesiados. Se não estamos vivendo o “Admirável Mundo Novo” de Huxley, estamos totalmente encaminhados pra isso.

JS – Michel desde já agradeço a oportunidade de mais uma entrevista, será sempre um prazer. Para finalizar que mensagem você deixa para quem está iniciando uma carreira na música?

ML – Eu é que agradeço, Jota! E vida longa para o “Mestre da Guitarra”!!! Minha mensagem aos que estão iniciando na música: se vocês forem realmente honestos ao lidar com esta arte, sempre estarão com a sensação de estar iniciando nela. O papo todo sobre “carreira” nunca me atraiu; a música, a divina, esta sim, nunca deixa de me seduzir. Abraços!

 

Jota Sabóia

Jota Sabóia Violonista, guitarrista e compositor, além de ser um professor de música que ama o que faz. Administra o Blog Mestre da Guitarra e contribui para o portal Play-R. http://mestredaguitarra.blogspot.com.br

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