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Entrevista com o guitarrista Michel Leme – Parte 1

11
set
Michel Leme - foto de Roberto Fachini

Por Jota Sabóia

Michel Leme é um dos grandes expoentes da guitarra no Brasil. Considerado um dos mestres da improvisação, tem mais de 22 anos de carreira e diversos álbuns lançados.

Nesta a primeira parte da entrevista feita por Jota Sabóia, do blog Mestre da Guitarra, Leme fala sobre seu recente DVD, companheiros de trio, improvisos e sobre a liberdade do artista independente.

JS – Ao assistir o DVD “Na Montanha”, percebi que foi filmado em dois ambientes, que tinha um clima inspirador e que se respirava arte com pinturas, o ar da montanha e muita musicalidade. Esse clima ajudou na hora de realizar o novo trabalho? O que há de diferente e interessante em tocar em cima da Montanha? Fale um pouco sobre o clima que havia atrás das câmeras.

ML – Em primeiro lugar, muito obrigado pela oportunidade e meus parabéns por este trabalho, Jota. Espaços como o Mestre da Guitarra são muito importantes pra quem curte música. Respondendo: eu faço parte da Associação Jatobá, que tem por princípio realizar atividades artísticas fora dos ditames mercadológicos. O núcleo onde atuo na associação é o Espaço Cultural Ventos Uivantes, em São Francisco Xavier, subdistrito de São José dos Campos (SP). Quando eu tive a ideia de registrar um novo trabalho, fiz questão de que fosse da maneira que aconteceu, ou seja, arte coletiva com música, foto, pintura e vídeo rolando na montanha. A primeira experiência de tocar ao ar livre no ECVU foi em 2008, quando gravamos um som com o Waguinho Vasconcelos (bateria) e o Robson Passos (baixo), com a pintura de um grande painel acontecendo simultaneamente – em breve postaremos vídeos desta atividade. Foi chocante tocar em meio à natureza, algo arrebatador mesmo. Quatro anos depois, senti uma emoção não menos intensa na parte ao ar livre do DVD. “Na Montanha” é mais um capítulo da grande continuidade, do grande processo que é tocar tentando submeter-se ao máximo apenas à música, e nesse caso com o diferencial fantástico de tocar onde tocamos. O clima atrás das câmeras foi o mesmo de quando nos encontramos para passar feriados juntos, ou seja, relaxadíssimo e entre amigos que amam fazer o que fazem.

JS – Quando conheci o som do Jimi Hendrix, não entendi a complexidade e genialidade no som dele, pois eu era muito novo. Porém, hoje Hendrix é referência para mim, pois consegui entender musicalmente quase tudo que ele fazia na guitarra. Quando conheci o Jazz, não consegui gostar de cara, pois não entendia a linguagem e achava difícil de tocar. Você acha que para assimilar melhor algum estilo o músico deve educar o ouvido e conhecer a linguagem musical do estilo?

ML – Sem dúvida. Quando eu ouvi Barney Kessel na TV eu não entendi nada. Eu tinha 14 anos, aproximadamente, e estava habituado com outro universo musical. Mesmo assim, eu me lembro claramente de que pensei “um dia eu vou tocar esse som”, porque algo me atraiu muito naquilo. E aí você vai conhecendo a linguagem, os temas, as formas, as “gírias”, os estilos de cada improvisador, vai assistindo os caras ao vivo e, enfim, vai sacando o que acontece, o que deixa tudo ainda mais prazeroso e mágico. E, se me permite, vale comentar sobre a questão “jazz” ou “não-jazz”: esta música que tocamos apropria-se da liberdade de improvisar sobre um tema e isso vem de tradições musicais muito anteriores ao surgimento do jazz. Para nós essa tradição da improvisação vem do jazz, que faz parte da formação de cada músico deste trio, mas junto com várias outras linguagens musicais a que fomos expostos. Então, o que tocamos não é propriamente jazz, e tampouco uma tentativa de ser jazz; tocamos algo que é fruto da visão que temos a respeito do ato de tocar juntos sobre um tema com uma melodia forte e com uma forma interessante para improvisar sobre. Eu chamo esse som apenas de música. E para quem quiser se aprofundar um pouco mais, seja tocando ou mesmo acompanhando o que acontece em termos de estruturas nas composições, nós disponibilizamos as partituras dos temas em PDF numa pasta do DVD.

JS - Jazz e Bossa Nova são estilos interessantes que têm diferenças e características que definem cada um. Sabendo que você é um Jazzista nato, que gosta de belas harmonias e melodias, gostaria de saber quais influências você tem na música brasileira? Fale também sobre alguma influência do Jazz importante para a sua formação.

ML – De fato, não sou “jazzista nato”, Jota. Sempre gostei de improvisar, isso é fato, mas não começou com a linguagem do jazz. Eu nasci numa família que ama música: meu avô paterno tocava muito bem violão, meu pai estudou violino formalmente, minha mãe estudou piano e acordeon e meu irmão toca guitarra. Aos sete anos eu tocava baixo em alguns ensaios e até apresentações do meu irmão, que me apresentou a sons como Jimi Hendrix, Black Sabbath, Led Zeppelin, Beatles, John McLaughlin, George Benson etc.; aos oito comecei ao violão, tocando música brasileira com meu avô – eu o acompanhava em choros, valsas, catiras, enfim, vários ritmos que fizeram parte da vida dele no começo do século XX em Espírito Santo do Pinhal, interior de SP. Junto com isso, meu pai ouvia Mozart, Bach, Paganini e árias de óperas em casa. O interesse pelo jazz veio forte aos 18 anos: meus amigos Pierre, Tuta Bastos (In Memorian) e Antonio Carlos me chamavam pra tocar temas brasileiros com harmonias que eu desconhecia e diziam “sola aí!”, e eu, mesmo sem saber nada do que estava fazendo em termos teóricos, tentava algo musical sobre o que estava rolando. Como eles gostavam, eu continuava sendo chamado pros sons, o que era e continua sendo ótimo, porque é sempre um grande prazer e um grande aprendizado tocar. Só que chegou uma hora na qual eu me conscientizei de que era indispensável estudar os acordes mais o que era possível tocar sobre eles pra começar como eu acredito que se deva começar: tocando o que soa bonito sobre as sequências de acordes. A partir daí, eu comecei a mergulhar na música de Miles Davis, Thelonious Monk, Ahmad Jamal, John Coltrane, Wayne Shorter etc. Outra coisa que ajudou desde o começo foi não “colar” muito em guitarristas – o que ocasiona o muitíssimo comum aparecimento de meros “covers” por aí. Eu ouvi e conheço o som de vários guitarristas, mas preferi descobrir coisas novas no meu instrumento ao, além de tentar tocar o que eu imagino, tentar reproduzir o que fazem os saxofonistas, trompetistas, pianistas etc. O que não é nada novo, mas que realmente ajuda a abrir a mente e a enxergar coisas que eu jamais tinha sonhado enxergar no instrumento.

JS - Como surgiu a ideia de gravar em cima da Montanha? Fale um pouco sobre algumas composições do novo DVD.

ML – Foi preparada uma sala para gravar, que é o cenário da primeira parte do DVD, mas, desde que acordamos com um belo dia, já cogitamos gravar ao ar livre. Como o tempo continuou firme no decorrer, foi o que aconteceu. As composições são de épocas variadas, vão de 2003 até poucos meses antes da gravação. O DVD começa com o baião “Diz Aí” – o único take 2 do DVD, o restante é take 1 – que gravei num disco não-lançado de 2003 do grupo Motaba; o segundo tema é uma modesta homenagem ao maravilhoso músico/pianista McCoy Tyner, chamado “El Tyner”; a terceira faixa e última da parte “Dentro” é “Indo a Santos”, um samba rápido com três partes. Em seguida, vem a parte “Fora”, ao ar livre, onde tocamos quatro temas em seguida: “Entrelinhas”, um cha-cha mais introspectivo que compus ao vivo, tocando num boteco com o Bruno Migotto e o Jônatas Sansão; “Dominación” que surgiu numa passagem de som de uma apresentação do disco passado, o “5º”, e que encaixei na forma do “rhythm-changes”, sequência de acordes da composição “I got rhythm” de Gershwin, que teve inúmeros temas compostos sobre; o samba “Dito e Feito”, que foi gravada no primeiro disco do Edu Letti e que neste DVD tem uma versão um pouco mais lenta; e, fechando o DVD, tem o “Celso Childs’ Blues”, que não tem a forma clássica do blues de 12 compassos, mas tem a ver com o espírito da coisa, e é outro tema que compus na hora tocando em algum lugar. Tenho ouvido coisas ótimas de quem assiste ao DVD, o que é um bônus, porque todo o processo de produção do DVD foi extremamente prazeroso, um verdadeiro prêmio.


JS - Quem vê o “Michel Leme Trio” tocando observa que vocês são um time de grande qualidade para a música. O entrosamento do Trio também é algo a se elogiar. Sei por experiência própria que tocar com músicos de confiança é muito importante, pois além da música, também tem que rolar uma lealdade e profissionalismo. Qual a importância dos músicos “Bruno Tessele” e “Bruno Migotto” na concepção do novo trabalho? Fale um pouco sobre o que esses dois excelentes músicos representam para você.

ML – Eu toco com o Bruno Tessele desde 2004 e com o Bruno Migotto desde 2008, que foi o ano no qual esse trio começou a tocar junto. O que acontece com estes caras e alguns outros músicos aqui de SP e ABC é que eles entenderam que o músico deve submeter-se à música, ou seja, entenderam que o músico deve ouvir o que está acontecendo na hora e, ao invés de trazer suas concepções fechadas de casa e aplicar/repetir coisas mortas sobre algo que poderia ser vivo, eles escolhem reagir ao momento, levando em conta a real vontade de ouvir o que o outro tem a dizer e a grande realização pessoal que é ser parte de um todo, de um grupo que pode gerar sons poderosos e situações indescritíveis daquelas que ficam impressas na mente. Enfim, eles escolheram servir a algo muitíssimo maior do que qualquer ambição individual estúpida que, de fato, anula qualquer possibilidade da música acontecer. Os Brunos e alguns outros músicos mais jovens com os quais eu tenho a sorte de tocar representam a esperança de que a integridade e honestidade musical ainda são possíveis.


JS - Geralmente, guitarristas mais novos que estão construindo uma carreira têm uma preocupação com parte técnica e com velocidade somente. Não se preocupam com o fato de simplesmente tocar e sentir a música, improvisar. Querem sempre mostrar virtuosidade e agilidade, esquecendo que um simples tema ou improviso com feeling pode encantar e conquistar um coração e ouvido de quem está assistindo ou ouvindo. Já guitarristas mais maduros sabem os caminhos, não precisam provar nada a ninguém e se preocupam mais com o grupo ou trio do que com a performance pessoal . Você acha que é preciso ter uma dosagem certa para isso, será melhor uma performance pessoal do que uma performance coletiva?

ML – Sem dúvida, o que acontece coletivamente é muito mais poderoso, transformador. E é por isso que as manifestações artísticas que têm a ação coletiva como principal característica estão banidas da sociedade, um exemplo óbvio disso é a própria música instrumental que, com exceção da que é feita sob adequações, está totalmente no gueto. Como a orientação da ideologia dominante que está na mídia, nos filmes, novelas etc. leva o cidadão a ser um individualista em qualquer instância, o que neutraliza qualquer possibilidade da massa se reunir e se organizar para reagir à tirania das oligarquias que mandam no planeta, é óbvio que na música o “herói”, aquele que resolve tudo sozinho, será festejado. A síndrome do egoísta que quer que a música o sirva (e não o contrário) é apenas um reflexo do senso comum, o que é nefasto justamente por trazer a competição para a arte. E essa competição é tida como normal e certa, basta ter o desprazer de ler alguns fóruns na rede ou comentários lamentáveis no Youtube, por exemplo. E, curiosamente, quando você tromba com os caras que tocam competindo e você dá pra eles o mesmo remédio (ou veneno), eles ficam bem bravos! É curiosíssimo, a reação é ódio puro. Mas agradeço muitíssimo por estas oportunidades terem sido exceções raríssimas. Felizmente, venho tocando apenas com caras que tocam para o som. É uma questão de escolha: alguns se concentram na música; outros, em ser empreendedores.

JS - O fato de não gravar em um estúdio caro, sem caras famosos, sem pessoas que faz a arte da capa para todo mundo e sem alguém que faz masterização para todo mundo, deu mais liberdade a produção e realização do novo DVD?

ML – Sim. E, além de ter mais liberdade, pudemos deixar de gastar quantias que não condizem com a nossa realidade e muito menos com a nossa necessidade. E eu pude trabalhar com pessoas que amam o que fazem, e sem a menor afetação. Eu não troco isso por entrar na fila da “boiada”; não troco tentar algo que seja arriscado por simplesmente seguir a tendência dominante. Tem gente que se contenta em estar na média; minha autocrítica e o valor das pessoas que me cercam me fazem procurar por caminhos que proporcionem cada vez mais vida ao que amo fazer. E estes caminhos fazem parte de uma continuidade, de um acúmulo de experiências e de um conjunto de princípios que fazem tudo acontecer de uma forma mais humana, que não é assepticamente perfeita, mas que é incomparavelmente mais prazerosa. Então, enquanto, por exemplo, uns levantam um trabalho com um time que está no mesmo nível e na hora de gravar chamam os “medalhões”, dispensando os que chamavam “brothers” na hora H, eu sempre preferi ter um time e ser fiel a ele, e não porque sou “um cara legal”, mas porque a música soa mais viva desta maneira. O mesmo se aplica a escolher o risco de se agendar uma data para gravar ao ar livre ao invés de escolher gravar algo com as paredes de um estúdio como cenário. O foco é a música sempre, mas já que foi decidido fazer um DVD, porque não escolher um cenário como o que foi escolhido? Se a música acontece de uma forma natural, porque não ter a própria natureza como parte disso? Enfim, correr riscos e pensar em alternativas são coisas que me atraem muito mais.

Confira na semana que vem a segunda parte desta super entrevista com Michel Leme.

 

Jota Sabóia

Jota Sabóia Violonista, guitarrista e compositor, além de ser um professor de música que ama o que faz. Administra o Blog Mestre da Guitarra e contribui para o portal Play-R. http://mestredaguitarra.blogspot.com.br

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